(aspectos 1 e 2 - ao coração lanhado imagens tenras)
fotos 1 e 2: Camila Pereira M.


10' jun. 2009: o meu futuro estava na esquina do ombro dele. e eu cravei algumas pintas para não esquecer. nos dias em que eu estive por perto, deitava a cabeça no contorno do pescoço dele e ele dormia fácil, sereno, encaixando o nariz dele no meu. eu gostava do cheiro da respiração dele, que era tranqüila. às vezes assoprava os pêlos do braço para ver o arrepio correndo na pele. o coração dele batia na palma da minha mão - que eu mantinha estendida sobre o peito. meus cílios roçavam na barba dele. fios finos nos fios grossos. e eu desenhava palavras de amor invisíveis no corpo dele. eu o tocava naquele espaço grandioso que era meu futuro na constelação de pintas do ombro dele. mas ele não entendia os meus signos. e silenciava sempre que eu especulava numa vida nossa. ele fechava os olhos enquanto eu dizia das coisas de nós dois e montava um meio sorriso – sem felicidade alguma. era tudo mentira, eu pensei. era tudo uma grande invenção. nem pintas ele tinha. mas eu orbitava aquele ombro temendo escapar daquele espaço-mundo-laço criado com a ponta dos meus dedos. eu cravei uma mordida nele. e ele não sentiu. era tudo uma grande ilusão que só depois eu lembrei de apagar. aquelas lembranças que eu havia criado com apreço eram só minhas. eu contornava os sinais da pele dele. mas aquele homem que eu tocava nunca existiu. e o futuro grandioso que estava na esquina do ombro dele eu vi numa pinta do meu ombro. que eu toquei.

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