os movimentos e os contornos das próprias coisas, esta relação mágica, este pacto entre elas e mim, pelo qual lhes empresto meu corpo a fim de que nele possam inscrever e dar-me, às semelhança delas, esta prega, esta cavidade central do vidente e do visível, do palpador e do palpado, formam um sistema perfeitamente ligado no qual me baseio, definem uma visão em geral e um estilo constante da visibilidade de que não poderei desfazer-me, ainda que tal visão particular se revele ilusória, pois fico certo, então, de que, olhando melhor, teria tido a verdadeira visão, e que em todo o caso, aquela ou outra, sempre existe uma. a carne (a do mundo ou a minha) não é contingência, caos, mas textura regressa a si e convém a si mesma. nunca verei minhas retinas, mas estou absolutamente certo de que alguém encontrará no fundo dos meus globos oculares essas membranas embaciadas e secretas. e finalmente eu creio – creio que possuo os sentidos de homem, um corpo de homem – pois o espetáculo do mundo que é meu e que, a julgar por nossas confrontações não difere particularmente do dos outros, tanto em mim como nos outros se reporta como evidência a dimensões da visibilidade típicas e, finalmente, a um foco virtual de visão, a um detector também ele típico, de sorte que, na juntura do corpo e do mundo opacos, há um raio de generalidade e de luz.


- m. merleau-ponty

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